FERNANDO AZEVEDO
Vamos retroagir. Foi a nossa geração de pediatras a primeira a entrar na sala de parto graças à luta dos pediatras nossos professores. Foram décadas de debates até arrombar a porta, pois os anestesistas se consideravam preparados para reanimar o recém-nascido e os obstetras assistiam mãe e filho até a queda do cordão umbilical. Ai entrava o pediatra. O pediatra evoluiu para neonatologista e o generalista fica fora da competência para a especialidade. Uma rotina também eram as parteiras, cada maternidade com a sua, senhoras experientes com centenas e milhares de partos feitos e assistidos. A sociedade vai se modificando, o tempo escasso é o argumento para a operação cesariana que era um procedimento de reserva, e passa a ocupar o evento principal chegando ao absurdo número de mais de 90% dos partos hospitalares na rede privada. Muitos obstetras na primeira consulta dizem logo à cliente que não fazem parto normal. Como o mundo é redondo e da muitas voltas a sociedade se organiza e defende seus direitos sobre o corpo. A mulher quer parir em parto vaginal EM CASA. Surgem as enfermeiras especializadas e as doulas, acompanhantes e confortadoras das parturientes. Tenho acompanhado com muito interesse essa discussão, pois tive três filhos em partos normais e continuo ferrenho defensor dele e da amamentação exclusiva. Assisti não uma vez, mas inúmeras, complicações de um parto ao colocar a mulher deitada e sobre anestesia peridural ou raquidiana. Para tudo. Vem as manobras agressivas com o anestesista montado sobre o ventre a aperta-lo e espremê-lo não sabendo que lá dentro há um bebê. A festa lá fora muitas vezes foi interrompida com a notícia do péssimo estado ou morte do neonato. A mulher que faz parte do grupo do parto domiciliar se prepara, conversa, convence-se e colabora. A família tem uma participação especial no conforto à parturiente. Tenho conversado com essas mães e visto filmes que são feitos pelo grupo e realmente emociona. Nascimentos lindos. Risco? Sim como em qualquer evento. A diferença é que as cartas são postas na mesa e a parturiente participa da decisão. O que não entendo é a classe médica estar reagindo ao ponto de considerar infração ética (no Rio de Janeiro) a ajuda pelo médico nas situações de emergência. Proibi-los de participar, proibir hospitais de receber parturientes em dificuldade. No Barão de Lucena vi vários partos no taxi. Chegavam já com a criança nascida. Essa é a via natural. Esperar o trabalho de parto, esperar o rompimento da bolsa e não marcar data para esse acontecimento. As gestações de alto risco são outro assunto. Essas têm que ser acompanhadas com muitos exames e observação rigorosa e muitas vezes o parto cirúrgico se impõe. Só para complementar os partos nos EEUU, Europa, Canadá são vaginais e sem anestesia. E não é lá o PRIMEIRO MUNDO?